quarta-feira, 5 de junho de 2019

Joy


Joy
Lançamento Netflix: 24 de maio de 2019;
Direção e roteiro: Sudabeh Mortezai;
Sinopse Netflix: Na Áustria, uma prostituta nigeriana conta os dias para quitar suas dívidas enquanto ensina o ofício a uma novata e avalia os perigos de pegar um atalho para a liberdade.
Duração: 1h 39min;
País de Origem: Austria;
Classificação etária: 16 anos;
Ano de lançamento: 2018;
Gênero: Drama.



O nome da personagem protagonista do filme: Joy.

Ela é Nigeriana, prostituta na Austria com nome em inglês que também significa satisfação.

Eis minha primeira questão.

Uma mulher Africana ganhando a vida na Europa. Um filme que retrata a cruel e real vida de mulheres negras em países de brancos colonizadores.

Achei o roteiro fraco. A atriz é quem prende a gente na trama. Suas expressões não precisam de palavras ela segura bem o papel.

O roteiro é comum, não por conta da realidade que infelizmente ainda hoje é real. As cenas são fortes e podem ser gatilhos emocionais para quem já sofreu violência sexual, portanto atenção. Mas voltando ao roteiro, não coloca a visão da protagonista. Embora ela seja a narrativa, ficou um olhar de fora sobre ela.

Penso na personagem do livro Africanah* escrita por uma mulher Nigeriana e ali eu me deparo com a profundidade do ser que é a protagonista do livro. Aqui nesse filme a direção é de olhar eurocêntrico sobre uma mulher que precisa estar ali mesmo sendo trabalhadora sexual análoga a escrava.

Um exemplo do filme é no momento em que o cliente “apaixonado” da Joy leva uma grana pra ela. Ali eles tem várias questões colocadas de modo superficial, que eu acho perigoso, comum e cheio de preconceito:

- ele leva uma bolada propondo exclusividade ( ele a quer – além de sua esposa mãe de seus filhos- como prostituta exclusiva) ela recusa, parece que é idiota nessa hora...

- ela precisa ajudar o pai que está doente, ela acredita que isso tem a ver com sua religião e o acordo que fez em sua aldeia. Aqui ele a critica, pois imagina pra um austriaco acreditar em vodu? Ele quer que ela pague o que deve á madame que retém seu passaporte, quem lhe trouxe pra trabalhar na Europa. Ela quer mandar o dinheiro para o pai.  Aqui é muito claro a visão eurocêntrica. Tendemos a achar a mulher idiota por acreditar na sua própria cultura? Burra por temer seus iguais que usam de violência para conseguirem o que querem? Ele termina com ela e pega o dinheiro de volta.

- a madame dela ajuda ela com a doença do pai, ela pagará depois com juros. Mais tarde descobre que o irmão comprou carro novo na europa ( Família na Africa é mal caráter?!) . Isso tudo com a ajuda da madame. Essa parte aqui que depois é uma festa no fim do filme, gente aqui você vê a ideia de que a escravidão de mulheres é feita por mulheres! Parece que os brancos não estão nessa trama!

Juro que quando os brancos aparecem na maioria são passivos ( tirando os 3 caras da cena do estrupro , onde dois não tem rosto) . A sim a outra cena de estupro que é com a prostituta iniciante é a primeira cena de violência. Nessa cena são dois homens Nigerianos a mando da Madame, como corretivo para a novata que não queria ser prostituta, embora tenha pago para estar ali.  Esse embora, é reforçado constantemente. Umas três cenas coloca esse questionamento em que Joy e as outras prostitutas afirmam que “escolhem” estar ali.

Acho muito sério esse tipo de imagem. Por mais que seja verdade, a montagem da sequência das cenas tende a ser colonizadora. Os piores momentos são feitos entre os oprimidos que oprimem.

Qual a função disso hoje em dia depois das certezas históricas que envolvem o racismo sofrido pelos povos depois dos invasores da Europa?

Quando uma mulher é interessante no cinema atual sem ser objeto de desejo, prazer, violência e opressão?